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O fosso entre Sociedade e elite políticacanstockphoto14501083

Nunca a distância entre a elite política e as propostas e práticas das organizações sociais foi tão grande. É um verdadeiro fosso… Parecem duas realidades que não se tocam, se desconhecem, se ignoram até.

Neste fosso, avançam visões conservadoras e retrógradas, forçando a opinião pública para a direita, para “soluções” autoritárias e até truculentas. Neste meio se fortalecem as forças políticas conservadoras.

No final dos anos 1980 vivemos um processo bem diverso deste atual. Há quase três décadas, viveu-se o ápice de um processo de escuta, diálogo e acordos produtivos entre o sistema político e a sociedade civil. Foi no bojo do processo constituinte entre 1986 e 1988, o qual culminou com a promulgação da Constituição atual. Naqueles anos deu-se intensa mobilização social e debate público em torno dos temas chave da construção do novo ciclo da história do país. Todos os atores sociais mobilizaram-se em torno de suas pautas e de agendas coletivas, fazendo o país conhecer suas visões e suas propostas para a constituição então em processo de elaboração.

Este esforço concentrado contribuiu para produzir um pacto social que foi orientador e sustentáculo da nova Constituição, especialmente via ampliação de direitos políticos, econômicos e sociais. Por algum tempo, parecia até que o modelo de desenvolvimento poderia ser alterado. Só por um tempo…

Este pacto que fez o país avançar em inúmeros aspectos, e que nos trouxe até aqui, está ruindo diante de nossos olhos. A atual configuração das forças econômicas, sociais e políticas no Brasil não tem como resultante majoritária um vetor progressista como aquele do final dos anos 1980. Pelo contrário.

A elite política decide hoje como se não houvesse sociedade. O governo já nem sabe para quê governa… Os partidos seguem os (piores) rituais de poder, nada mais. O PT, outrora lócus de reflexão estratégica e inovação, perdeu o elã e a vitalidade, tropeçando nos próprios erros e se enfraquecendo a cada dia. A grande mídia faz uso de todo seu complexo de filtros para amplificar o que há de ruim e minimizar o que há de bom, expondo aqui e compondo acolá, levando boa parte da população a crer que a saída é retroceder, ceder, desistir…

Uma síntese do noticiário destes dias poderia ser: “O maior problema do mundo é a corrupção; toda ela é culpa do PT; não há como promover desenvolvimento sustentável com dignidade humana e democracia; a sociedade não é capaz de buscar a superação de seus problemas”.

Enquanto isso, o que aconteceu com a sociedade civil nestes últimos anos? Enquanto nos anos 1990 as organizações e redes da sociedade civil (OSCs) se fortaleciam e marcavam sua presença e influência na sociedade, os anos 2000 trouxeram grandes dificuldades e desafios.

As OSCs sofreram com as mudanças da cooperação internacional, muito importante como fator de sustentabilidade do tecido social catalisador de transformações, no período anterior. O setor público ampliou seu investimento nas OSCs via editais públicos, mas a um custo alto de exigências legais e administrativas e com sério risco de criminalização, tudo via o mecanismo de controle chamada Siconv. As organizações sociais passaram a depender mais e mais de recursos públicos, os quais, uma vez acessados, tendem a exigir um ímpeto de perseguição de metas que limita em muito a autoria, a autonomia e a capacidade de inovação. O setor corporativo seguiu investindo na área social, mas cada vez mais em projetos de curto prazo e via contratação de serviços.

Resumo da ópera: no período atual, ficou bem mais difícil conferir sustentabilidade política e financeira e autonomia às OSCS. Elas que foram vetores importantes dos avanços democratizantes dos anos 1980 e 90, perderam muito desta condição.

E agora?????

Uma estratégia importante no atual contexto é apostar na capacidade de comunicação das organizações para incidência no espaço público. A sua sustentabilidade está tanto na capacidade de mobilização de recursos quanto na capacidade de interpelação e mobilização da sociedade.

Aprofundar, ampliar e qualificar a dimensão comunicativa dos projetos e ações sociais é o caminho. Identificar conteúdos, mecanismos e oportunidades neles para informar, escutar, dialogar, desafiar/provocar reflexão, propor, convidar, compreender, demonstrar – o problema social, as estratégias de enfrentamento, o que a sociedade tem a ver com isso, para quê se faz o trabalho, formas de ajudar…

É hora de escutar e dialogar com a sociedade. Não importa tanto a forma. Invente as suas…

O momento é de reconstruir pontes de sentido com a sociedade; de reestabelecer laços e forjar novas possibilidades de futuro.

Do muito pequeno ao muito grande.

Para superar fossos, há que estar dispostos a descer a ribanceira, antes de tentar subir do outro lado.

Boa jornada!

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