Como avançar sem retroceder?

prefeitura_poaEsta pergunta foi feita por um colega no recente debate do qual participei no CAMP sobre as manifestações e protestos de junho passado.

Estavam lá o pessoal do CAMP, gente de outras Ongs, do MST, do movimento sindical e também representantes de alguns dos principais grupos e redes que mobilizaram para as manifestações em Porto Alegre.

Foi um ótimo debate ao final, mas difícil no início, já que muitos ali, simbolicamente, representavam “o velho”, “o instituído”… e os grupos e redes convidados pelo CAMP representavam o contrário, “o novo”, “o futuro”.

Foi difícil começar. No início falava-se sobre os acontecimentos e sobre as visões presentes, mas não havia diálogo. Havia sim falas fortes dos atores das manifestações, e havia da parte dos demais, uma escuta curiosa.

Coisas importantes foram ditas e ouvidas. Algumas mensagens muito diretas, já claríssimas em junho, voltaram à cena, do tipo: “Não está tudo bem!”; “Hoje é tudo base aliada”; “As atuais saídas não nos contemplam”; “Não acreditamos nessa democracia”.

Outro campo de elementos novos foi a valorização do “novo” em junho: novas alianças no movimento social da juventude, o surgimento de um novo ator, novas formas de luta, valorização do aspecto simbólico, tudo isso confluindo para a criação do que foi denominado de “novas referências”.

Tratou-se de algumas perguntas interessantes e apontou- se algumas pistas de respostas:

– Por que em junho de 2013 e não em outro momento?

Porque havia um processo de articulação e aliança entre movimentos desde o início do ano, porque vinha crescendo a insatisfação de muita gente com os serviços públicos, com a corrupção e os gastos para a Copa do Mundo, e das Confederações conferiu a oportunidade para tudo acontecer, já que representava tudo isso junto num único evento, e com mídia assegurada.

– Por que o preço das passagens como estopim?

Na análise dos movimentos, a questão chave para compreender junho está na mobilidade urbana; é uma disputa de território (com a iniciativa privada). O exemplo que nos foi dado foi o do Plano Diretor de POA, que seria ótimo, mas seus principais instrumentos não são de fato orientadores da dinâmica da cidade, a qual estaria refém do que interessa à iniciativa privada. No fundo, emerge uma liderança juvenil comprometida em defender o interesse público e o espaço público dos grandes interesses privados na vida da cidade. O transporte e o preço da passagem se tornaram, como a Copa das Confederações, o mote ideal que articulava isso tudo, com a vantagem simbólica da “caixa preta” do cálculo das tarifas.

– Por que a violência?

Os grupos e redes presentes não orientam nem praticam violência, e atuaram para orientar grupos que faziam uso de violência para evitarem o patrimônio público. Mas compreendem a legitimidade do uso de violência como estratégia política e simbólica de crítica ao capitalismo e ao domínio do interesse privado sobre a vida das pessoas. A violência nas ruas findou aumentando como reação à repressão policial. Ficou evidente nos relatos que havia diferentes tipos de violência nas ruas – algumas mais de tipo não politizado, com saques a lojas; e outra de cunho ideológico, voltada ao patrimônio de grandes empresas privadas. Ficou a sensação de que este último, do tipo Black Bloc, veio para ficar.

Uma hipótese mais geral sobre o porquê de junho sinaliza para a crescente redução da pobreza e das desigualdades sociais, maior mobilidade social e à maior proximidade social entre diferentes estratos da sociedade, gerando novas expectativas, maior consciência de limites, ampliando horizontes de futuro…, e isso tudo trouxe novas tensões e contradições.

Ao final, no quase-diálogo, relutante e difícil, podia-se identificar duas mensagens:

A mensagem ”das ruas” para “os instituídos”: “Estão aprisionando a democracia desta forma atual, e não radicalizando a democracia”. Estaria esgotada a vitalidade e relevância da atual geração de lideranças de esquerda que governa políticas públicas sociais, Ongs, movimentos sociais, centrais sindicais, etc.?

A mensagem de Ongs, movimentos sociais e sindicais às organizações que mobilizaram para junho: Como avançar em termos de democracia, de combate à pobreza e desigualdades, de combate à corrupção, de reforma política, de mobilidade urbana, etc., sem retroceder em relação a tudo que já se conquistou no país? Afinal, quer-se não somente uma sociedade igualitária, quer-se que ela seja também democrática.

A entrega destas mensagens e as respectivas reações ficaram para o próximo debate, que, não por acaso, será centrado na questão da democracia.

Domingos Armani

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