Arquivo do mês: setembro 2013

Como avançar sem retroceder?

prefeitura_poaEsta pergunta foi feita por um colega no recente debate do qual participei no CAMP sobre as manifestações e protestos de junho passado.

Estavam lá o pessoal do CAMP, gente de outras Ongs, do MST, do movimento sindical e também representantes de alguns dos principais grupos e redes que mobilizaram para as manifestações em Porto Alegre.

Foi um ótimo debate ao final, mas difícil no início, já que muitos ali, simbolicamente, representavam “o velho”, “o instituído”… e os grupos e redes convidados pelo CAMP representavam o contrário, “o novo”, “o futuro”.

Foi difícil começar. No início falava-se sobre os acontecimentos e sobre as visões presentes, mas não havia diálogo. Havia sim falas fortes dos atores das manifestações, e havia da parte dos demais, uma escuta curiosa.

Coisas importantes foram ditas e ouvidas. Algumas mensagens muito diretas, já claríssimas em junho, voltaram à cena, do tipo: “Não está tudo bem!”; “Hoje é tudo base aliada”; “As atuais saídas não nos contemplam”; “Não acreditamos nessa democracia”.

Outro campo de elementos novos foi a valorização do “novo” em junho: novas alianças no movimento social da juventude, o surgimento de um novo ator, novas formas de luta, valorização do aspecto simbólico, tudo isso confluindo para a criação do que foi denominado de “novas referências”.

Tratou-se de algumas perguntas interessantes e apontou- se algumas pistas de respostas:

– Por que em junho de 2013 e não em outro momento?

Porque havia um processo de articulação e aliança entre movimentos desde o início do ano, porque vinha crescendo a insatisfação de muita gente com os serviços públicos, com a corrupção e os gastos para a Copa do Mundo, e das Confederações conferiu a oportunidade para tudo acontecer, já que representava tudo isso junto num único evento, e com mídia assegurada.

– Por que o preço das passagens como estopim?

Na análise dos movimentos, a questão chave para compreender junho está na mobilidade urbana; é uma disputa de território (com a iniciativa privada). O exemplo que nos foi dado foi o do Plano Diretor de POA, que seria ótimo, mas seus principais instrumentos não são de fato orientadores da dinâmica da cidade, a qual estaria refém do que interessa à iniciativa privada. No fundo, emerge uma liderança juvenil comprometida em defender o interesse público e o espaço público dos grandes interesses privados na vida da cidade. O transporte e o preço da passagem se tornaram, como a Copa das Confederações, o mote ideal que articulava isso tudo, com a vantagem simbólica da “caixa preta” do cálculo das tarifas.

– Por que a violência?

Os grupos e redes presentes não orientam nem praticam violência, e atuaram para orientar grupos que faziam uso de violência para evitarem o patrimônio público. Mas compreendem a legitimidade do uso de violência como estratégia política e simbólica de crítica ao capitalismo e ao domínio do interesse privado sobre a vida das pessoas. A violência nas ruas findou aumentando como reação à repressão policial. Ficou evidente nos relatos que havia diferentes tipos de violência nas ruas – algumas mais de tipo não politizado, com saques a lojas; e outra de cunho ideológico, voltada ao patrimônio de grandes empresas privadas. Ficou a sensação de que este último, do tipo Black Bloc, veio para ficar.

Uma hipótese mais geral sobre o porquê de junho sinaliza para a crescente redução da pobreza e das desigualdades sociais, maior mobilidade social e à maior proximidade social entre diferentes estratos da sociedade, gerando novas expectativas, maior consciência de limites, ampliando horizontes de futuro…, e isso tudo trouxe novas tensões e contradições.

Ao final, no quase-diálogo, relutante e difícil, podia-se identificar duas mensagens:

A mensagem ”das ruas” para “os instituídos”: “Estão aprisionando a democracia desta forma atual, e não radicalizando a democracia”. Estaria esgotada a vitalidade e relevância da atual geração de lideranças de esquerda que governa políticas públicas sociais, Ongs, movimentos sociais, centrais sindicais, etc.?

A mensagem de Ongs, movimentos sociais e sindicais às organizações que mobilizaram para junho: Como avançar em termos de democracia, de combate à pobreza e desigualdades, de combate à corrupção, de reforma política, de mobilidade urbana, etc., sem retroceder em relação a tudo que já se conquistou no país? Afinal, quer-se não somente uma sociedade igualitária, quer-se que ela seja também democrática.

A entrega destas mensagens e as respectivas reações ficaram para o próximo debate, que, não por acaso, será centrado na questão da democracia.

Domingos Armani

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ONGs endurecem com Dilma

Inúmeras redes e organizações da sociedade civil acabam de subscrever uma dura nota pública dirigida ao governo federal.
Na nota, um conjunto muito representativo das OSCs brasileiras afirma que o governo Dilma não cumpriu suas promessas em relação à proposição de um novo marco legal para o setor, revelando-se ambíguo em relação à relevância social e política deste campo de atores da sociedade civil.
Isto é, depois de toda uma gestão distanciada dos movimentos, organizações e redes sociais e das manifestações das redes virtuais e movimentos juvenis de junho, agora são as organizações sociais estabelecidas (OSCs/Ongs) que vêm a público desnudar o atual governo em termos de seus reais compromissos e valores.
Neste caso, ficando evidente que o protagonismo autônomo de atores comprometidos com os valores da dignidade humana e da radicalização da democracia na sociedade civil não consta do rol de valores do atual governo federal.
Pena!
Se o governo não adere a estes valores, então cabe à sociedade civil mobilizar-se para fazê-lo reconhecer tais valores, ainda que a contragosto…
Domingos Armani

NOTA PÚBLICA

MARCO REGULATÓRIO DAS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL E O CONTROLE DA CORRUPÇÃO – O QUE ESTÁ POR TRÁS DO DESCASO DO GOVERNO?

Em outubro de 2010, a então candidata à presidência da República, Dilma Rousseff, firmou o compromisso de, no caso de ser eleita, apresentar, “com a maior brevidade possível, no prazo máximo de um ano”, proposta de aperfeiçoamento da legislação que assegurasse às organizações da sociedade civil (OSCs) “uma relação jurídica mais adequada” com o Estado e “um ambiente regulatório estável e sadio”. Na carta que dirigiu à Plataforma por um novo marco regulatório para as Organizações da Sociedade Civil, a atual Presidenta expressou o seu reconhecimento da importância das organizações da sociedade civil, valorizando o “seu papel fundamental na construção, gestão, execução e controle social das políticas públicas”. Destarte, a candidata acenou com uma política de governo voltada para o fortalecimento das OSCs e pautada pelo respeito à sua autonomia.

Transcorridos mais de dois anos e meio do mandato da Presidenta Dilma Rousseff, a trajetória do seu governo frente à questão do marco regulatório revela-se inequivocamente contraditória com os compromissos assumidos, embora devam ser reconhecidas algumas medidas setoriais positivas. Um rápido balanço das iniciativas governamentais nesse período comprova a falta de vontade política do atual governo no tocante à revisão da legislação que rege as relações das OSCs com o Estado, para não falarmos do seu suposto compromisso com políticas voltadas para o apoio e fortalecimento das organizações da sociedade civil que atuam na defesa de direitos e na luta contra as desigualdades: 

  • Apesar da promessa de constituição “com a maior brevidade possível” de um Grupo de Trabalho sobre o marco regulatório, e da sua criação por decreto presidencial, o GT nunca foi nomeado oficialmente, tendo trabalhado informalmente, conforme decisão da Secretaria Geral da Presidência da República.
  • O referido GT só foi criado em setembro de 2011, e instalado em novembro do mesmo ano, ao final de um seminário internacional sobre o marco regulatório promovido pela Secretaria Geral da Presidência da República. Na ocasião, a Presidenta Dilma Rousseff deixou claras as suas reservas com relação a essas iniciativas, ao impedir os meios de comunicação de terem acesso à cobertura do evento.
  • Essa aparente inconsistência da ação governamental pode ser facilmente entendida se considerarmos que nos últimos meses de 2011 o governo estava às voltas com mais um escândalo de corrupção, decorrente de denúncias de intermediação pelo Ministério dos Esportes da contratação de “ONGs” para o programa “Segundo Tempo” em troca de uma comissão de 20%.
  • Diante desse episódio que propiciava novos elementos para reforçar a criminalização das ONGs e colocar sob suspeita todos os repasses de recursos públicos para organizações da sociedade civil, a Presidenta da República reforçou a ambivalência da postura governamental. Em lugar de focar a sua atuação numa enérgica apuração dos fatos denunciados relativos ao Ministério dos Esportes, o governo optou por desviar o foco da questão para a relação do governo com o conjunto das OSCs. Essa opção materializou-se no decreto que suspendeu indiscriminadamente todos os repasses para organizações não governamentais, “a fim de proceder em determinado tempo a sua avaliação e cancelamento daqueles considerados irregulares”. Com tal medida a presidência da República produziu enorme dano à imagem das OSCs, fazendo ainda com que a grande maioria das organizações sem fins lucrativos fossem penalizadas injustamente.
  • Fazendo frente a esse contexto adverso, o Grupo de Trabalho produziu, durante o primeiro semestre de 2012, inúmeras propostas de aperfeiçoamento do marco legal e de medidas visando mais transparência sobre a atuação das OSCs. O Ministro Gilberto Carvalho se comprometeu a submeter o relatório com esses resultados à apreciação de Dilma Rousseff, entretanto, transcorridos mais de 12 meses do final dos trabalhos, a Presidenta não se pronunciou a respeito. Os representantes das OSCs solicitaram reiteradamente e sem sucesso uma audiência com ela para conhecer as razões do seu aparente desinteresse pelo trabalho do grupo. Além de contradizer os compromissos assumidos, tal atitude desperdiça centenas de horas de trabalho de servidores públicos, representantes das organizações n&a tilde;o governamentais e juristas que se dedicaram a esse trabalho. 

A atuação aparentemente contraditória do governo Dilma não pode mais nos iludir. Não podemos mais desconhecer a fragilidade do compromisso do governo federal com o fortalecimento de um campo autônomo de organizações da sociedade civil. A postura do atual governo teve como precedente o bloqueio dessa agenda nos oito anos do governo Lula, tendo ambos, nesse aspecto, dado continuidade à tradição autoritária do Estado Brasileiro. Como disse recentemente o Bispo de Santarém, Flavio Giovenale, presidente da Cáritas Brasileira, “Não vejo só um distanciamento [do governo Dilma] à igreja, mas com todas ONGs. Me parece que tem uma atitude de autossuficiência do governo, de dizer ‘não precisamos das entidades sociais’. Há um distanciamento de tu do aquilo que é sociedade civil organizada. O governo diz: ‘o Estado sou eu’. Não! O Estado é muito mais amplo. Governo passa e o Estado fica. Público são todos os agentes que trabalham na melhoria da sociedade, então o papel das ONGs é fundamental. O marco regulatório [das ONGs] está sendo levado em banho-maria. Com Dilma vejo que a dificuldade de diálogo aumentou muito” (Valor Econômico, 19 de julho de 2013). 

É inadiável a superação por parte do governo da visão que absolutiza o papel do Estado e desconhece na prática a importância de uma sociedade civil autônoma, organizada e fortalecida. O bloqueio da revisão do marco regulatório, favorecendo a corrução e a arbitrariedade nas relações das OSCs com o Estado, é uma questão essencialmente política. Se ficar submetido a uma base de sustentação conservadora, na qual as bancadas ruralista e “evangélica fundamentalista” têm enorme peso, o atual governo não poderá priorizar a agenda de um campo de organizações que participam de enfrentamentos diários com os interesses do agronegócio, defendem os direitos dos indígenas, e se contrapõem &agra ve; agenda dos grupos religiosos fundamentalistas que buscam reverter e impedir avanços dos direitos humanos das mulheres, de homossexuais e da população negra. 

O governo da presidente Dilma Rousseff pode ainda reverter essas expectativas negativas, renovando o seu compromisso com as organizações da sociedade civil, através da adoção de medidas concretas: 

  • Assinatura imediata do decreto que aprimora o sistema de transferências financeiras do Governo Federal para as entidades da sociedade civil, clareando o entendimento sobre esse tema.
  • Encaminhamento ao Congresso Nacional, em regime de urgência, do Projeto de Lei também proposto pelo grupo, agilizando a tramitação da matéria, que já vem sendo tratada no Legislativo por iniciativa do Senador Rodrigo Rollemberg e do deputado Eduardo Barbosa.
  • Reconvocação imediata do Grupo de Trabalho, agora com nomeação oficial, para detalhar as propostas de legislação e de políticas que contemplem os demais pontos da Plataforma ainda não equacionados: políticas de fomento à organização autônoma da cidadania e à participação social, ambiente tributário facilitado, democratização dos incentivos às doações de pessoas físicas e jurídicas às organizações de interesse público, revisão do sistema de certificação e de seus benefícios. 

As redes e entidades que subscrevem este documento reivindicam da Presidenta a tomada imediata de tais medidas. Temos a convicção de que uma sociedade civil fortalecida é condição para viabilizar a reforma política que a sociedade brasileira almeja. Estamos convictos também de que sem as organizações da sociedade civil o Brasil estará mais vulnerável ao acirramento das desigualdades e da violência, à espoliação de nossos bens naturais e culturais e à proliferação da pobreza. 

Ver lista de organizações e redes signatárias no site da Abong (www.abong.org.br).

Para subscrever encaminhe email com o nome e sigla (se houver) da entidade para: observatorio@abong.org.br

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