As Ongs pelo olhar da mídia

DSC08703Qualquer pessoa que já tenha passado pela experiência de falar para a grande mídia sobre as Ongs, seu papel e seu trabalho, sabe que esta não é uma tarefa fácil.

Seja porque os jornalistas, em geral, não estão familiarizados com o tema e o tratam de forma caricatural e simplista; seja porque sua pauta vem marcada pelo enquadramento preliminar das Ongs como parte de algo percebido como um problema; ou ainda porque assumem um viés de ceticismo e desconfiança com relação à autenticidade do compromisso que move as pessoas nestas organizações.

É muito comum que matérias da grande mídia associem as Ongs a interesses privados de todo tipo: vinculadas a partidos, a igrejas, a políticos, a governos, a interesses de certas empresas, a estratégias de organizações internacionais, e assim por diante.

Tudo isso existe, claro, mas não caracteriza ou define o sentido de existência do setor. Tal atitude da mídia indica a dificuldade, quando não a má vontade, de reconhecer nas organizações da sociedade civil que defendem e promovem direitos, um campo ético-político que busca expressar o interesse público sobre questões e temas relevantes para a sociedade.

Nos anos 70 e 80, a mídia convencional mal reconhecia a existência das Ongs/OSCs (Organizações da Sociedade Civil).

Nos anos 90, a mídia brasileira “descobriu” as Ongs, graças ao Betinho e à Eco 92. As Ongs foram valorizadas como bem intencionadas, “do bem”, não faziam mal a ninguém, afinal.

Mas então vieram os dois mandatos de Lula e os 10 anos de gestão petista no governo federal, desenvolvendo muitas das bandeiras históricas da sociedade civil organizada desde a Assembleia Nacional Constituinte de 1987/88.

Neste contexto de intensificação da disputa por modelos e estratégias de desenvolvimento, as Ongs e OSCs em geral ganham projeção no debate público, vendo-se, muitas vezes, envoltas em conflitos entre interesses divergentes na sociedade.

No mesmo período, alguns grupos sociais políticos passaram a fazer uso da imagem pública positiva das Ongs para seus próprios fins – políticos, partidários ou mesmo financeiros – deturpando a finalidade e o sentido público destas organizações.

Boa parte da mídia parece ter ficado perdida a partir daí, tendo dificuldade de diferenciar o joio do trigo, optando por tratar das Ongs genericamente como canais potenciais para a prática de irregularidades e ilícitos.

Como consequência dos elementos acima, nos últimos anos a grande mídia ampliou a cobertura sobre as Ongs e OSCs em geral. Isso foi reflexo também de seu crescimento em número, diversidade e alcance na sociedade. Infelizmente, porém, a mídia passou a focar, ora na associação de certas “Ongs” com esquemas de desvio de recursos ou corrupção, ora na necessidade de transparência, controle e boa gestão das mesmas.

O problema é que a questão que mais importa – o debate sobre o papel e as formas de contribuição das Ongs e OSCs em geral para o desenvolvimento social e político do país – parece ter ficado diluída na cobertura.

Torna-se urgente debater e aprovar um novo marco regulatório que ajude a sociedade, e a mídia, a melhor identificar o setor e separá-lo de supostas “Ongs” utilizadas para fins outros que não o bem público.

Espera-se que entre em tramitação este ano no Congresso nacional o PL relativo ao novo marco regulatório, projeto este construído em diálogo entre o Executivo Federal e as representações do setor, organizadas pelo Grupo Facilitador da Plataforma por um Novo Marco Regulatório das OSCs (www.plataformaosc.org.br).

No final de 2012, a ANDI – Comunicação e Direitos, Ong de Brasília (www.andi.org.br) lançou, com o apoio da Fundação AVINA (www.avina.net), uma iniciativa muito oportuna: analisar a cobertura da grande mídia impressa nacional e regional sobre as OSCs de 2006 a 2012.

Afinal, como a mídia tratou as Ongs/OSCs? Que aspectos foram mais enfocados? Quais as pautas recorrentes? O que falta para qualificar a cobertura? O que se pode oferecer aos jornalistas para qualificar seu trabalho sobre o setor?

O resultado da pesquisa será publicado ainda no primeiro semestre e será importante instrumento para dialogar com os profissionais da área e para aprofundar a reflexão sobre a importância de saber se relacionar com a mídia.

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