Fatores que fazem a diferença na crise das OSCs

Cada organização vive situações críticas de sustentabilidade à sua maneira. Cada uma delas tem sua história, sua identidade, seus valores, sua cultura e… suas fragilidades próprias. Nos momentos críticos, o conjunto de virtudes e capacidades de que a organização dispõe faz toda a diferença nas chances de superação. A minha experiência recente tem sugerido que três fatores são determinantes para a maior chance de sobrevivência e retomada de um novo ciclo de fortalecimento institucional.

O primeiro deles é a consciência de que crises sérias de sustentabilidade institucional sinalizam para a necessidade de iniciar-se um novo ciclo na vida da organização. A vida das organizações é estruturada em ciclos, mais ou menos longos, a depender de sua trajetória e das transformações do contexto. A mudança de ciclo ocorre quando a organização já não se mostra sustentável, política, técnica e financeiramente, como antes. É quando suas formas de ser e fazer já não se mostram suficientes para satisfazer seus integrantes e seus parceiros e apoiadores. Daí ser importante que a direção e as principais lideranças se dêem conta e tenham a coragem de assumir que, “ou mudamos para continuarmos relevantes na sociedade” ou “caminhamos para desaparecer”. A consciência de que um novo ciclo precisa nascer, porém, não resolve tudo. Faz-se necessário refletir coletivamente, interna e externamente, sobre oportunidades, alternativas e forças e… riscos. É imperativo identificar/formular o eixo geral em torno do qual o novo ciclo se define e se diferencia.

O segundo fator é a existência de um grupo de pessoas interessadas e mobilizadas pelo futuro da organização e das causas que ela abraça. Este grupo, usualmente, envolve parte das lideranças e técnicos e um grupo de diretores e associados. Geralmente, é um grupo relativamente pequeno, pelo menos em sua dimensão mais visível. Eles tendem a ser uma mistura de associados antigos e novos que, por razões em parte comums e em parte distintas, converge para o interesse de preservar e fortalecer a organização.

Nos momentos críticos é fundamental perguntar-se: a organização ainda tem uma missão relevante a cumprir? Quem nela está efetivamente interessado em sua continuidade, ao ponto de assumir responsabilidade no processo futuro?

Outro fator importante é a abertura e flexibilidade para conferir contemporaneidade ao projeto político institucional. Depois de muitos anos de atuação, ainda que com resultados e impactos relevantes, as organizações muitas vezes perdem o frescor, o elã e a vibração dos anos anteriores. As coisas, de certa forma, seguem sendo realizadas como sempre foram. Programas e projetos não expressam inovação, criatividade e capacidade de atrair novos parceiros e apoiadores. As causas promovidas já não tem a mesma projeção/prioridade no espaço público.  As abordagens e metodologias praticadas já não dialogam a contento com os conceitos e debates contemporâneos. Em suma, a organização não logrou transpor sua proposta geral em termos mais adequados e viáveis ao novo contexto. Por isso, a presença de uma atitude de abertura e de inovação é tão importante. Elas possibilitam que os valores, princípios e a visão e missão da organização sejam atualizados em roupagem atual, dialogando com as questões, temas, argumentos e desafios que a sociedade debate hoje. Ela desenvolve a capacidade de ser contemporânea de seu tempo em diferentes períodos de sua história. Mas, de onde vem esta atitude, esta disposição? Ela não vem por combustão espontânea; ela, quando presente, é parte da cultura institucional, é um valor que anima vários dos integrantes da organização e que emerge como virtude nestas circunstâncias.

Muitas outras coisas pesam positivamente no enfrentamento de situação críticas na vida das organizações, mas a combinação destes três componentes faz toda a diferença.

1 comentário

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Uma resposta para “Fatores que fazem a diferença na crise das OSCs

  1. Fátima Nascimento

    Oi Domingos, muito legal (objetivo, claro, lúcido) seu texto. Fiquei me perguntando se era possível generalizar (ocs das osc), mas pensando que vivemos um momento em que há sim necessidade de atualizar nosso existir: são outras demandas, outras formas de enfrentá-las, com um perfil completamente diferente de pessoas atuando/querendo atuar nas organizações, com formas de financiamento (e consequentemente de gestão, distintos do passado), sim passamos todos por uma crise, de paradigma. Abs

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