O fim das Ongs como nós as conhecemos

A sustentabilidade das Ongs de defesa de direitos, importantes por seu papel autônomo e crítico na sociedade civil está ameaçada.
A cada retorno de trabalhos de campo pelo Brasil meu sentimento é de tristeza e de ceticismo sobre o futuro das Ongs. Tendo acompanhado como ator o surgimento do setor no Brasil nos anos 80, é com tristeza que verifico um processo de crise e dificuldades para lidar com ela no setor nos últimos anos.
A situação é muito séria e a cada dia as Ongs veem-se obrigadas a cortar, reduzir, enxugar, deixar de  fazer, focar, desligar pessoas e assim por diante, em um movimento de regressão no seu papel político e nas suas condições de existência. Penso que as Ongs tem de pensar rapidamente em estratégias de inovação como setor – mudar para não perder relevância e, até mesmo, desaparecer.
Visite uma Ong e você verá que o quadro, via de regra é: orçamentos em redução gradual ano a ano, redução da equipe, saída de pessoas mais antigas na instituição, venda de ativos, mudança do tipo de vínculo contratual com profissionais (de CLT para autônomos ou mesmo para Pessoas Jurídicas) e cresente desmotivação. O pior de tudo é que há resistência em admitir a real situação e dificuldade em estabelecer estratégias de mudança. A cultura organizacional, muitas vezes eivada de valores e princípios que já não são conectados com os novos tempos e novos desafios, representa enorme barreira à inovação. As lideranças, em muitos casos, representam visões conservadoras, impedindo reais mudanças. Potenciais novas lideranças veem-se desestimuladas.
Um dos principais fatores desta mudança de cenário das Ongs é a nova dinâmica imposta à gestão financeira, baseada em projetos com foco definido, de curta duração, muitas vezes voltados à prestação de serviços via editais, com limitada contribuição à cobertura dos custos institucionais. Neste sistema, as energias das organizações são desafiadas ao máximo para a realização das ações fim dos projetos, restando muito pouco (de energia e de recursos) para o conjunto da dinâmica institucional.
A observação das organizações e a escuta às suas lideranças neste momento revela um sentimento de impotência e de perplexidade. Faz-se cada vez mais o que é possível, e cada vez menos o que se gostaria de fazer.
Muitas vezes, novas iniciativas são tentadas, mas elas são conduzidas dentro dos marcos da cultura organizacional vigente, resultando na limitação de suas possibilidades e efeitos.
Por outro lado, a percepção pública sobre as Ongs, alimentada por certa mídia, hoje se mistura com malandragem, sacanagem, enriquecimento e corrupção, longe da imagem que antes esteve exclusivamente associada a altruismo, dedicação e defesa do interesse público.
Não são todas as Ongs que passam por uma situação crítica; tampouco todos os tipos de OSCs. Há Ongs e Ongs, e OSCs e OSCs, afinal. Me refiro aqui àquelas organizações autoidentificadas como “Ongs”, com atitude crítica e proativa na mobilização social em prol de uma sociedade melhor para todos/as. Este campo ético-político de organizações e redes, expressão de um tecido social democratizante, está em perigo.
Cabe ao setor e a seus aliados a promoção de iniciativas em prol das condições de sustentabilidade do setor como um todo.
A atual mobilização em torno de um novo marco regulatório é vital, mas não resolverá de todo o problema.
Para superar este período de mudanças e de crise, as Ongs que quiserem permanecer como protagonistas em seus territórios e campos temáticos terão de ajustar suas formas de organização & gestão, e para isso terão de enfrentar e reverter aqueles padrões e mitos internos que se tornaram obstáculos à inovação.

8 Comentários

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8 Respostas para “O fim das Ongs como nós as conhecemos

  1. Caro Domingos,
    Realmente, vivenciei isso em algumas ONGs por onde passei… Há uma enorme resistência na mudança de paradigma de captação de recursos, uma verdadeira aversão à palavra “marketing”, como se ele só tivesse um lado ruim.
    Não acredito que o fim das ONGs está chegando, mas sim o de um determinado padrão de gestão, que não se coaduna mais com a realidade.
    Há que sermos firmes em nossos propósitos e ideais, mantendo a coerência ética em nossas ações, mas isso não significa que devamos abrir mão da sustentabilidade necessária à sobrevivência daquilo que nos move.
    Estive na Cúpula dos Povos e vi (como sempre) o quão importante é o papel dessas organizações. Não podemos, em nome da manutenção de uma rigidez desproporcional, inviabilizar trabalhos tão caros à nossa sociedade.
    Um forte abraço,
    Gisela.

    • domingosarmani

      É isso mesmo Gisela, concordo contigo.
      O momento é de transição e, nessas circunstâncias, algumas organizações tem maior facilidade do que outras para navegar e buscar novas bases de atuação e de sustentabilidade.
      Nestes momentos, tanto as virtudes como as fragilidades das organizações são testadas ao extermo…
      Sem coragem e audácia, fica difícil avançar.

  2. Domingos, gostei muito do texto e estou enviando o linck para toda minha rede. Estou justo tentando abrir este debate no interior das diveresas orgnaizações em que participo e, sempre que pauto o tema, o que vejo é abertura e acolhimento. Na minha opinião estás organizando e consolidando um sentimento que já está colocado nas organizações de maior liderança e em seus gestores.
    Tenho certeza que este empurrãozinho vai tornar o debate mais orgânico e menos especulativo.
    Obrigado. Léo Voigt

    • domingosarmani

      Obrigado Léo. Bom saber de tua percepção sobre o tema e tuas experiências positivas. Um fator relevante nesta questão é de qual circuito das OSCs está-se falando. Alguns deles tem maior dificuldade que outros, naturalmente. Importante levantar o tema e seguir contribuindo para fazer avançar a reflexão e a ação. Grande abraço.

  3. Geraldinho Vieira

    Excelente texto, Domingos ! Excelentes comentários, amig@s!

    Acho que podemos aprofundar um pouco sobre a re-invenção de nossas organizações não apenas no aspecto de sua da gestão, mas quanto a seu papel sócio-político.

    Creio que repensar nossos objetivos e posicionamento num mundo bem diferente do que tínhamos 20 anos atrás é o que pode trazer luzes ao desafio de uma nova gestão… afinal, precisamos estar alinhados com motivações maiores para que a dedicação à gestão ganhe sentido que transcenda a sobrevivência das instituições por si mesma.

    Grato, Leo, por compartilhar o link para esta essencial leitura!

    Carinho a todo@s,
    Geraldinho Vieira

  4. Sylvia Bojunga

    Meus caros mestres Domingos Armani, Léo Voigt e Geraldinho Vieira,
    as questões apontadas neste artigo e nos comentários sobre ele tocam, com clareza e objetividade, nos problemas mais graves que o terceiro setor, em particular o segmento representado pelas ONGs, vem enfrentando na última década sem que surjam novos caminhos para resolvê-los. Ao contrário, nos meus contatos com organizações aqui do Rio Grande do Sul, também percebo um empobrecimento que não se restringe à gestão dos recursos. Há desmotivação e pouca inovação, sem dúvida, e total falta de estímulo à permanência de bons profissionais, que tendem a buscar a terceirização ou outras áreas como alternativa de sobrevivência. A gestão por projetos, que deveria otimizar impactos sociais, acaba implicando descontinuidade nas ações. Pior ainda, observo empobrecimento no campo ideológico e crescente perda de identidade à medida que aumenta a dependência do setor público, em maior grau, e do privado, em menor grau. Para agravar mais esse quadro, “assistência social” se tornou sinônimo de propina, na linguagem cifrada de corruptos e quadrilhas especializadas em desvios de recursos públicos. Compartilho com vocês a certeza de que é preciso agir para não desaparecer como setor, ou jogar fora as conquistas de muitos anos de batalha. Não tenho respostas nem soluções prontas, infelizmente, mas sim um forte desejo de contribuir para uma nova etapa de construção coletiva.
    Abraços,
    Sylvia Bojunga

  5. ANA LÚCIA SUAREZ MACIEL

    Domingos, parabéns pelo texto que revela uma lucidez que pode parecer pessimista, mas que, para mim, reafirmou a ideia e o otimismo de que o setor só avançará se for capaz de empreender a sua proria autoanálise! Isso supõe não, apenas, vontade organizacional, mas competência política, ética e cognitiva para construir uma nova identidade no grande vazio deixado pelas antigas ONGs. Forte abraço, Ana Lúcia Maciel

  6. Belarmino

    Armani, este tema é bem actual no caso de Angola.

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